23/05/2026

Arte e Tradição Lambe-Lambe Transformam Aula do 9º Ano em Crato


Resgatar o Passado para Revelar o Futuro

No dia 22 de maio de 2026, o bairro Pinto Madeira, em Crato, Ceará, recebeu a Poesia da Luz em um cenário de pura alquimia visual e histórica. Os estudantes do 9°ano C da Escola E.E.F Dom Quintino deixaram a tradicional sala de aula para mergulhar de cabeça em uma das manifestações mais ricas da fotografia popular brasileira: a Câmara Lambe-Lambe.

A iniciativa, idealizada e conduzida pelas estagiárias de Arte Gabriele Alves e Vitória Emilly, teve como objetivo central apresentar à juventude imersa no digital os processos físicos e químicos que deram origem à imagem impressa. A atividade foi fundamentada nas diretrizes da BNCC aliando teoria, fruição e a prática do fazer artístico.


Mais do que uma aula de história da arte, a experiência contou com a presença da Nívia Uchôa, Fotógrafa, cineasta, ativista e proprietária da empresa Poesia da Luz e também Chico Bruno, Fotógrafo, construtor de câmeras e laboratorista analógico.

Da Calçada ao Balde: O Milagre da Revelação




O grande clímax da aula aconteceu em plena via pública, sob a luz do sol do Cariri. Utilizando uma estrutura improvisada com lona, balde com água, químicos e uma câmera lambe-lambe, os artistas montaram um verdadeiro laboratório ambulante. Os alunos puderam vivenciar o processo clássico: posar para a câmara montada no tripé, compreender o conceito da caixa escura e acompanhar a mágica físico-química da revelação, onde os negativos de papel ganhavam contornos, sorrisos e olhares analógicos.

O Processo na Prática:

1. O Alvo e a Luz: Os estudantes sentavam-se individualmente em uma cadeira disposta na calçada, tendo como fundo um pano branco estendido na parede da escola.

2. A Caixa e o Clique: Através da Câmara Lambe-Lambe, o fotógrafo capturava a imagem e iniciava a manipulação interna no escuro da caixa.

3. A Revelação: Em seguida, as mãos lavavam o papel fotográfico nas bandejas com químicos e o milagre acontecia: a imagem em tom de cinza surgia para posterior lavagem final na parte externa da câmara.

4. A Secagem: Ao final, dezenas de retratos em preto e branco foram dispostos sobre uma mesa escolar, revelando a identidade e o orgulho de uma turma inteira. De acordo com o plano das estagiárias, a avaliação baseou-se inteiramente no engajamento e na sensibilidade dos alunos com a arte local. O resultado superou as expectativas: a calçada da escola Dom Quintino não foi apenas um espaço de passagem, mas um monumento vivo de valorização da memória, provando que, mesmo na era dos filtros digitais e das redes sociais, a poesia da luz analógica ainda tem o poder de fascinar e educar.


Nossos agradecimentos à Nivia Uchôa pela 

18/02/2026

Fotografia Lambe-Lambe vai ao XI Herança Nativa do SESC Ceará

Em meio ao toré dos povos indígenas, ao balanço das saias das comunidades quilombolas e ao aroma das medicinas tradicionais, uma pequena caixa de madeira sobre um tripé roubou a cena no XIº Encontro Sesc Herança Nativa. Transformando o Sesc Iparana Reserva Natural, em um portal do tempo onde o passado e o presente se encontraram através da fotografia lambe-lambe.

Indígena Purú Kariri posa para um retrato 

A Magia que Vem do Cariri


Enquanto a tecnologia digital promete a perfeição instantânea e descartável, Chico Bruno levou para o evento a paciência e o encantamento da fotografia lambe-lambe. O fotógrafo, vindo diretamente do Cariri — terra de mestres e tradições — trouxe na bagagem a técnica centenária de revelar fotos dentro da própria câmera-caixote.


"O lambe-lambe não é apenas tirar uma foto; é um ritual de fixar a alma no papel. No Herança Nativa, cada rosto que passa por aqui carrega uma linhagem inteira. É uma honra devolver esse reflexo de forma tão tátil e artesanal", comenta Chico Bruno, entre uma revelação e outra.

 

O Retrato como Documento de Identidade Cultural


O projeto Retrato Batido não apenas registrou os rostos dos participantes; ele se tornou parte da programação vivencial. Lideranças indígenas, ciganos e quilombolas se aproximavam da c para ver a "mágica" acontecer. O processo, que envolve químicos, banhos de água e a luz do sol, fascina pela sua natureza orgânica.

Diferente do selfie no smartphone, o retrato lambe-lambe exige presença. É preciso ficar imóvel, respirar o tempo da química e esperar que a imagem surja, mergulhada na bandeja, como um segredo revelado. Para muitos mestres da cultura tradicional presentes no Sesc Iparana, levar para casa aquele pedaço de papel em preto e branco foi como carregar um espelho de sua própria história.


O Evento: Um Caldeirão de Saberes



Encontro Sesc Herança Nativa 2026 consolidou-se este ano como um dos maiores espaços de intercâmbio cultural do Brasil. Reunindo representantes de mais de 80 municípios cearenses e, pela primeira vez, delegações de países africanos e asiáticos, o evento celebrou a diversidade que forma a identidade brasileira. A participação de Chico Bruno reforçou o tema desta edição: a memória como ato de resistência. Ao resgatar uma profissão que desapareceu das praças brasileiras, o Retrato Batido Cariri dialoga diretamente com a luta dos povos originários pela preservação de seus próprios territórios e saberes.

15/02/2026

Ver o mundo por um furo. Pinhole...


A fotografia pinhole, com sua natureza rústica e quase mágica, sobrevive ao tempo como um lembrete de que a essência da imagem não reside na tecnologia de ponta, mas na própria natureza da luz. Em um cenário contemporâneo onde a inteligência artificial e os sensores de altíssima resolução dominam o mercado, essa técnica — baseada no simples princípio da câmera escura — atrai um número crescente de entusiastas que buscam o que muitos chamam de "slow photography". O conceito remete à Antiguidade, quando pensadores como Aristóteles observaram que a luz, ao passar por um pequeno orifício em uma caixa selada, projeta uma imagem invertida do mundo exterior na parede oposta. O que era um auxílio para pintores no Renascimento tornou-se, com o advento da química no século XIX, um dos métodos mais puros de registro visual.


Diferente das câmeras convencionais, o equipamento pinhole (onde pin significa alfinete e hole significa buraco/furo)  dispensa o uso de lentes de vidro. O objetivo é, literalmente, um buraco de agulha feito em uma superfície fina de metal. Essa ausência de óptica produz uma estética inconfundível: uma nitidez suave que se estende infinitamente, do objeto mais próximo ao horizonte mais distante. Como a abertura é minúscula, a quantidade de luz que atinge o filme ou o papel fotográfico é extremamente reduzida, o que exige tempos de exposição que variam de alguns segundos a várias horas. Esse fator temporal introduz uma dimensão poética na fotografia, onde o movimento frenético das cidades desaparece, transformando ruas lotadas em cenários fantasmagóricos e silenciosos.


Para o artista, a pinhole representa um exercício de desapego e controle artesanal. Sem visor para enquadrar ou visor digital para conferir o resultado imediato, o fotógrafo precisa confiar na intuição e na sua compreensão da geometria da luz. Muitas vezes, a própria câmera é construída pelo autor a partir de objetos cotidianos, como latas de café ou caixas de madeira, o que permite distorções e perspectivas que o equipamento industrializado raramente oferece. No laboratório, o suspense da revelação completa o ciclo de uma arte que não aceita a pressa. Em última análise, a fotografia de orifício não é apenas uma técnica técnica arcaica, mas uma resistência cultural que convida o olhar a desacelerar e a apreciar a textura do tempo gravada no papel.