Você já "bateu" um retrato?

Fotógrafo de rua, Brasília, 1958 (Fotografia de Peter Scheie/Acervo IMS)

Se você pedir a um jovem de hoje para "bater um retrato", é provável que ele entenda o recado, mas arqueie a sobrancelha diante do termo arcaico. Na era das selfies instantâneas e dos filtros de inteligência artificial, a expressão sobrevive como um fóssil linguístico de um tempo em que a imagem não era tirada, mas sim conquistada a duras penas.

Historicamente, o termo carrega a herança da pintura. Antes do daguerreótipo desembarcar no Rio de Janeiro em 1840 — trazido pelo abade Louis Compte e prontamente adotado por um entusiasta Dom Pedro II —, o "retrato" (do latim retrahere, ou "trazer de volta") era exclusividade dos pincéis. Quando a fotografia surgiu, ela não herdou apenas o nome da pintura, mas também sua solenidade.

Retrato de Maurice Comte de Saxe, 1747
(Pintura a pastel de Maurice Quentin de La Tour)

Mas por que "bater"? A explicação é mecânica e sensorial. Nos primórdios da fotografia popular no Brasil, os fotógrafos de praça — os lendários "lambe-lambes" — operavam máquinas de madeira que exigiam rituais barulhentos.

Obturador "batendo" um retrato em câmera lambe-lambe

O ato de capturar a luz envolvia o acionamento de um obturador manual que emitia um estalo seco, um "claque" que ecoava como um golpe. Em estúdios mais antigos, o uso do magnésio para o flash causava uma pequena explosão, um "baque" luminoso que assustava os desavisados. Bater um retrato era, literalmente, um evento físico.

Diferente do frenesi atual, "bater um retrato" exigia uma disciplina quase monástica. Como o tempo de exposição era longo — minutos extremamente desconfortáveis —, o retratado precisava estancar o sangue e a respiração. Para auxiliar na imobilização de quem posava para o retrato o fotógrafo utilizava um "head-rest", ou seja, um apoio de cabeça ajustável para que ninguém saísse tremido na chapa fotográfica.

Head-rest - apoio de cabeça - para estabilizar o fotografado em estúdio


Deatlhe do uso de um Head-rest apoiando a cabeça

Daí vem a origem daquelas faces severas e sem sorriso que vemos nos álbuns de nossos bisavós. Sorrir por dois minutos era um suplício muscular; manter a seriedade era uma estratégia de sobrevivência técnica. O retrato era a prova documental da existência, um objeto sagrado que seria emoldurado na sala de visitas para vigiar as gerações futuras.

Hoje, a fotografia perdeu o peso do metal e do vidro, tornando-se bit volátil. No entanto, quando um avô pede ao neto para "bater um retrato" da família no almoço de domingo, ele não está apenas usando um verbo antigo. Ele está evocando a memória de quando uma imagem era um acontecimento, um rito de passagem que interrompia o tempo com um estalo. Pode ser que a mecânica tenha mudado, mas o desejo permanece o mesmo: o de trazer de volta aquele instante, antes que ele se perca na velocidade da luz.

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