Fotopintura Nordestina, o Photoshop do Sertão


Quem já entrou em uma casa antiga no interior do Nordeste certamente viu um deles na parede da sala: retratos coloridos, com olhares fixos, bochechas levemente rosadas e roupas impecáveis de missa de domingo. Aqueles rostos, que parecem flutuar entre a fotografia e a pintura a óleo, são os sobreviventes de uma das manifestações artísticas mais ricas, afetuosas e engenhosas do Brasil — a fotopintura.

Muito antes de filtros de redes sociais ou programas de edição digital existirem, os fotopintores do sertão já dominavam a arte de transformar a realidade de acordo com o desejo de seus clientes.


A dignidade pintada

A fotopintura nasceu da necessidade. Nas primeiras décadas do século XX, ter uma câmera fotográfica ou acesso a um estúdio no interior do país era um luxo inacessível para a maior parte da população. Quando um fotógrafo ambulante (o lambe-lambe) passava pela região, as fotos costumavam ser pequenas, em preto e branco, muitas vezes de má qualidade pela precariedade da técnica e dos insumos trabalhados de forma rústica pelos fotógrafos.

Entravam em cena as oficinas de retratistas. Para uma fotopintura ser produzida era necessário um retrato original (frequentemente uma 3x4) que passava primeiro por uma ampliação em um papel fotográfico fosco. Então, o artista esmaecia os traços desnecessários, deixando apenas o contorno suave do rosto. Depois com tintas a óleo, pastéis e trinchas finas, o pintor recriava a pele, os cabelos e os olhos, adicionando cores vibrantes e fundos celestiais em tons de azul e nuvens brancas. Mais do que apenas colorir, o fotopintor agia como um realizador de sonhos. O cliente enviava uma foto desgastada, de chinelo de dedo e camisa surrada, e o artista devolvia um quadro imponente, vestindo o retratado com um terno de linho, gravata e até joias de ouro pintadas à mão. Rugas sumiam, dentes quebrados eram consertados e expressões cansadas ganhavam uma serenidade transcendente. Um Photoshop sertanejo.




"O foto-retrato pintado representa historicamente uma democratização na obtenção de um autorretrato, no sentido de facilitar por seu baixo custo e aquisição de uma pintura em óleo, ou pastel, nos moldes acadêmicos, antes privilégio exclusivo de um pequeno grupo", define o historiador e colecionador Titus Riedl, detentor de um dos maiores acervos da técnica no país.



Os Mortos-Vivos e as Famílias Reunidas

Uma das facetas mais tocantes e impressionantes da fotopintura era a capacidade de desafiar o tempo e a morte. Não eram raros os pedidos de mães que queriam um retrato com o filho que havia falecido ainda bebê – os anjinhos – ou de viúvas que desejavam reunir na mesma imagem o falecido marido a uma foto recente sua.




O artista recortava os contornos de fotos tiradas muitas vezes com décadas de diferença, colava-as lado a lado e, através das pinceladas, unificava a iluminação e o cenário. Na parede da sala, a família permanecia completa, rompendo as barreiras da distância e do luto.


Um mestre do ofício





Abdon Alves é um dos nomes mais reverenciados da fotopintura tradicional nordestina, reconhecido pela maestria técnica com que operava em seu lendário estúdio em Juazeiro do Norte. Com um domínio cirúrgico das trinchas, ele se destacou pela capacidade de conferir uma dignidade quase mística aos retratados, suavizando as marcas do tempo e as asperezas da vida sertaneja com pinceladas precisas de tinta a óleo. Uma peculiaridade de seu trabalho foi a assinatura nos cantos dos retratos conferindo um foro de obra de arte para além da simples representação do cliente.


Deatalhe da assinatura de Abdon diretamente no retrato

Sua oficina funcionou por mais de cinquenta anos como um verdadeiro santuário da memória visual do Cariri, transformando fotos amassadas e desgastadas em relíquias históricas das famílias. Abdon faleceu aos 68 anos em 2019 deixando um legado de cores em retratos que até hoje ocupam o lugar de honra nas paredes de inúmeros lares cearenses.

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