Lampião e Kodak em Juazeiro: 100 Anos do Capitão em Retrato


Há exatamente cem anos, em 4 de março de 1926, Juazeiro do Norte testemunhava uma cena única na história do sertão. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, entrava na cidade de Joazeiro não como o fora-da-lei temido, mas como um convidado de honra para integrar os Batalhões Patrióticos e combater, dentro da legalidade, a Coluna Prestes.

De repente um patriota

O Governo Federal e as lideranças locais, sob a liderança ferrenha do doutor Floro Bartolomeu da Costa e a bênção de Padre Cícero, precisavam de homens que conhecessem o sertão como a palma da mão para deter a Coluna Prestes. Lampião viu nisso uma oportunidade de legitimidade temperada pela promessa de uma patente de capitão. O facínora não foi a Juazeiro apenas por estratégia militar; ele foi em busca de legitimidade. Para um homem que vivia à margem da lei, a ideia de se tornar oficialmente um "Capitão do Exército Brasileiro" era o ápice de sua construção de imagem... Ele queria o uniforme, o reconhecimento e, acima de tudo, o salvo-conduto.
 
Padre Cícero Romão Batista

Enquanto Lampião desfilava sua imponência pelas ruas de Juazeiro, o homem que verdadeiramente orquestrou sua vinda estava moribundo. Floro Bartolomeu, o médico baiano que se tornou o braço político do Padre Cícero e a ponte com o Governo Federal, não pôde sequer apertar a mão do Rei do Cangaço. Floro era o único que possuía o trânsito político para garantir que a patente de Lampião fosse oficial. Assim, com ele retirado às pressas para a capital por complicações de sua saúde, o processo ficou nas mãos de subordinados e do próprio Padre Cícero, que não tinha o mesmo traquejo para lidar com as formalidades militares exigidas por Virgulino.

Apenas quatro dias após a passagem de Lampião por Juazeiro, em 8 de março de 1926, Floro Bartolomeu faleceria. Sua morte marcou o fim de uma hegemonia política no Cariri e deixou Lampião com um "papel de capitão" assinado por um funcionário do Ministério da Agricultura, sem nenhum valor real perante o Exército. Além da frustração por não receber as armas e munições prometidas e percebendo que a anistia era uma promessa vazia, Lampião sequer chegou a enfrentar a Coluna Prestes de forma efetiva. Retornou para o sertão apenas com um papel rascunhado e a aura de "Capitão" que ele mesmo sustentaria até o fim de seus dias, por pura força de vontade e propaganda pessoal.
 
 
Doutor Floro Bartolomeu da Costa


Pedro Maia

Para nós, fotógrafos e entusiastas da imagem, esse evento é um marco. O olhar por trás da câmera era o do fotógrafo cratense Pedro Maia. Com o domínio técnico da luz dura do Cariri, Pedro Maia foi o responsável por fixar em sais de prata a imagem de um Lampião que ainda buscava respeitabilidade. Diferente das fotos posteriores de Benjamin Abrahão (que focavam no exotismo e no movimento), os registros de Pedro Maia em 1926 capturam um bando em transição: há um rigor quase militar na postura, mas os detalhes artesanais do couro e do metal já revelavam a identidade visual única do cangaço. Para um fotógrafo hoje, observar o trabalho de Maia é entender como a composição e o enquadramento podem conferir dignidade, autoridade e firmeza.
 
Fotos atribídas a Pedro Maia quando da vinda ao Juazeiro em 1926


Kodak e Lampião frente a frente

Para entender a nitidez e a magia das fotos de Lampião em Juazeiro, precisamos olhar para a ferramenta de Pedro Maia: a Century N° 5 Studio Outfit, fabricada pela Eastman Kodak & Century Camera Company por volta de 1907. Uma câmera de concepção clássica, projetada para estúdios de elite, ver uma dessas operando no calor e na poeira do Cariri era um espetáculo à parte. A Century N° 5 não usava rolos de filme, mas placas de vidro de 5x7 ou 8x10 polegadas, o que rendeu uma altíssima resolução das fotos de Lampião. Mesmo 100 anos depois, conseguimos ver as ranhuras do couro e os detalhes das moedas nos chapéus. Não há grão como no filme 135; há uma transição de tons suave e contínua.
 
Anúncio da Kodak Century N° 05 em catálogo de 1907

Feita de mogno polido e latão sob acabamento em cauda de andorinha, a câmera possuía um fole longo de 14 polegadas que permitia um ajuste de foco extremamente preciso. Pedro Maia precisava de estabilidade total, pois operar uma Century exigia um tripé com stand pesado e um fotógrafo que soubesse compensar a luz fortíssima que invadia o quintal onde foram capturadas as imagens para não estourar os brancos das vestimentas e metais dos acessórios. Assim, munido de uma espetacular lente Wollensak Vesta Portrait, Pedro Maia passou com maestria à posteridade seu nome e obra.




De Rochester ao Cariri 

Fabricada em meados de 1916 em Rochester, Nova York — o epicentro da tecnologia óptica mundial na época — esta lente foi projetada com um propósito único: o retrato artístico de alta fidelidade. Com uma abertura máxima de f/5, a Vesta era uma lente rápida para os padrões de estúdio de 1926. Ela permitia a Pedro Maia trabalhar com profundidades de campo seletivas, rendendo um foco nítido no centro (nos olhos e nas medalhas de Lampião) que se suaviza gentilmente em direção às bordas, pois essa lente produz um desfoque de fundo (bokeh) natural isolando Lampião dos demais elementos de segundo plano.

Modelo da Wollensak Vesta Portrait que fotografou Lampião


Para o formato de placa 5x7, uma lente de 10 polegadas é considerada uma teleobjetiva moderada. Isso é fundamental para o retrato, pois evita a distorção das feições (como o aumento do nariz em lentes mais abertas). Ela achata a perspectiva de forma elegante, ideal para os bustos e retratos grandes que imortalizaram a figura de Virgulino. A robustez do cristal da Wollensak permitia uma captação de luz generosa. Em Juazeiro, sob o sol forte ou na penumbra dos casarões, essa lente garantia que as texturas complexas do couro e o brilho dos metais fossem registrados com uma transição de sombras rica e detalhada.

Diferente das câmeras instantâneas de hoje, fotografar Lampião com a Century N° 5 era um processo lento: Primeiramente precisava cobrir a cabeça com um pano preto para enxergar a imagem (invertida) no vidro despolido. Depois Lampião e seu bando tinham que permanecer imóveis por alguns segundos devido à sensibilidade química das placas da época. A imponência de Lampião nessas fotos não é por acaso. Ele teve que sustentar a pose enquanto Maia operava a complexa mecânica da Century. O resultado é uma imagem estática, pesada e carregada de uma solenidade que o digital raramente consegue replicar.


Observe a suavidade das sombras e o olho direito
sutilmente escondido para atenuar a deformação

Lampião era extremamente vaidoso e consciente de sua imagem. Ele sabia que um Capitão do Exército não poderia transparecer vulnerabilidade. Pedro Maia, percebendo a limitação física no olho direito de Virgulino, utilizou duas técnicas fundamentais de composição para salvar o retrato: primeiro não fotografou Lampião de frente (plano frontal total), o que evidenciaria a assimetria do olhar. Ele posicionou Lampião em um ângulo de três quartos, levemente voltado para a sua esquerda. Ao rotacionar o rosto de Lampião, o olho esquerdo (ou seja, o olho "bom") ficava em primeiro plano, mais próximo da lente Wollensak Vesta. O olho direito, lesionado, ficava na zona de fuga da perspectiva, naturalmente mais sombreado e menos detalhado pela profundidade de campo da lente f/5.

Como a Wollensak Vesta tinha uma nitidez impressionante, Maia precisava de algo mais para disfarçar a lesão. Ele aproveitou a icônica aba do chapéu de couro de Lampião inclinando levemente o chapéu ou posicionou a luz vinda de cima de forma que a sombra da aba caísse estrategicamente sobre a parte superior da órbita direita. Isso criou um mistério visual. Em vez de um "olho cego", o público via uma "sombra de autoridade". A deficiência física foi transformada em um traço de personalidade severa e imponente. Para um fotógrafo de 1926, editar significava dirigir o modelo antes do clique. Pedro Maia corrigiu a estética de Lampião sem precisar de retoques químicos posteriores no negativo de vidro. Ele entendeu que a fotografia de um mito não deve registrar a realidade nua e crua, mas sim a versão mais poderosa dessa realidade. Há relatos de que Lampião admirou-se da sua habilidade de retratista e até o elogiou. Pedro Maia, com merecido orgulho, assinou sua obra-prima rubricando sobre as vestes de Lampião: “Foto Maia – Crato –”.


Detalhe da assinatura de Pedro Maia

Graças a essa manobra de Maia, as fotos tiradas em Juazeiro há cem anos — neste 4 de março — tornaram-se o padrão ouro da iconografia do Cangaço: um Lampião altivo, cujo olhar, embora marcado, parecia mirar o horizonte com a precisão de um atirador. A câmera foi tempos depois vendida por Pedro Maia ao seu amigo e também colega de profissão Júlio Saraiva Leão, então fundador e proprietário do Photo Riso em Crato, passando ao patrimônio da família Saraiva que hoje integra o acervo do Museu Casa de Telma Saraiva Museu da Fotografia do Cariri.
 

Pedro Maia posa para um retrato junto ao seu carro,
agora como chofer da Praça Siqueira Campos em Crato


Kodak Century N° 05 pós-restauro por Chico Bruno em 2024

A Centuty Kodak N° 5 e sua Wollensak Vesta passaram por restauro entre 2023 e 2024 no laboratório de Chico Bruno a pedido do filho de Telma e neto de Júlio Saraiva, Ernesto Rocha. A câmera recebeu enxertos de madeira em áreas danificadas, limpeza de metais e lubrificação de engrenagens, foi construído novo fole e vidro despolido, além de restauro de cor. Ernesto Rocha reconduziu a peça para Museu onde permanece integrando o maior acervo de fotografia do Cariri cearense.

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