10/08/2025

Um francês, uma câmara e uma janela...



Joseph Nicéphore Niépce, um nome fundamental na história da fotografia, foi um inventor francês cuja persistência e curiosidade abriram caminho para a captura e fixação de imagens. Nascido em Chalon-sur-Saône, França, em 1765, Niépce veio de uma família abastada e teve uma educação sólida, que o levou a uma vida de experimentação científica e inovação. Sua trajetória não se limitou a um único campo; ele se aventurou na física, química e até mesmo na criação de um motor de combustão interna, mas foi a busca por uma maneira de "desenhar com a luz" que o imortalizou.

A jornada de Niépce em direção à fotografia começou com a litografia, uma técnica de impressão. Ele buscava uma forma de produzir gravuras sem a necessidade de desenhar à mão. Inspirado por essa necessidade, começou a investigar substâncias que se alteravam com a exposição à luz. Seus experimentos o levaram a descobrir o potencial do betume da Judeia, um tipo de asfalto, que endurecia quando exposto à luz. Esta propriedade química foi a chave para o seu sucesso.

Ponto de Vista da Janela em Le Gras

A grande inovação de Niépce foi combinar esse betume fotossensível com a câmara escura, um aparelho já conhecido que projetava uma imagem do exterior em uma superfície interna. Em 1826 ou 1827, ele conseguiu sua maior proeza: a criação da primeira fotografia permanente conhecida. A imagem, intitulada "Ponto de Vista da Janela em Le Gras", foi capturada em uma placa de estanho revestida com betume da Judeia. Para obter essa foto, a placa foi exposta à luz por um período incrivelmente longo, estimado em várias horas, ou até mesmo dias. O resultado, embora rudimentar, foi revolucionário: a primeira imagem da realidade fixada quimicamente.

As contribuições de Niépce para a fotografia vão muito além dessa única imagem. Ele foi o pioneiro no processo que ele chamou de heliografia (do grego, "desenho do sol"). Este processo envolvia o uso da luz para criar imagens que podiam ser gravadas e reproduzidas. Embora suas heliografias iniciais fossem de baixa qualidade e exigissem tempos de exposição extremamente longos, elas estabeleceram os princípios básicos da fotografia: a necessidade de um material fotossensível, a ação da luz sobre esse material e um processo para fixar a imagem e torná-la permanente.

Niépce percebeu que precisava aprimorar seu método e, em 1829, iniciou uma colaboração com Louis Daguerre, um talentoso pintor e cenógrafo que se interessou por suas invenções. A parceria visava aprimorar o processo fotográfico e torná-lo mais prático. No entanto, Niépce faleceu em 1833, deixando seu trabalho incompleto.

Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851)

Após a morte de Niépce, Daguerre continuou a pesquisa, mas fez alterações significativas, substituindo o betume por uma placa de cobre prateada sensibilizada com vapor de iodo, e desenvolvendo uma maneira de revelar a imagem com vapor de mercúrio e fixá-la com sal. O resultado foi o daguerreótipo, um processo mais eficiente e que produzia imagens nítidas. Embora Daguerre tenha recebido a maior parte do crédito na época por anunciar a invenção em 1839, ele reconheceu a contribuição de Niépce, nomeando o novo processo como um aprimoramento da heliografia.

Apesar de não ter visto o sucesso comercial da fotografia, o legado de Niépce é indiscutível. Ele foi o visionário que primeiro capturou a luz de forma permanente, lançando as bases para todas as inovações que se seguiram. Sua heliografia foi o embrião da fotografia, uma invenção que mudaria para sempre a arte, a ciência e a forma como vemos e registramos o mundo. A paciência e a dedicação de Niépce, que passou anos em sua busca solitária, são um testemunho do espírito de inovação que move a humanidade. Sua contribuição permanece como um marco inicial na jornada da fotografia, um elo crucial entre a curiosidade científica e a arte de capturar momentos.

22/07/2024

Juazeiro: Um fruto da fé


Se você caminhasse pelas terras do Cariri cearense em meados do século XIX, encontraria apenas um modesto aglomerado de casas conhecido como Tabuleiro Grande. Poucos poderiam prever que aquele entroncamento de caminhos, marcado pela sombra de três juazeiros, se tornaria a maior potência econômica do interior do Ceará e um dos maiores centros de peregrinação do mundo. A transformação começou efetivamente em 1872, com a chegada do jovem sacerdote Padre Cícero Romão Batista, que rapidamente se tornou a alma e o motor do desenvolvimento local através de seu trabalho pastoral e social.

Padre Cicero Romão Batista (c. 1918)

O destino da vila mudou drasticamente no ano de 1889, durante uma missa que entraria para a história da religiosidade popular. O relato de que a hóstia entregue pelo Padre Cícero à beata Maria de Araújo se transformou em sangue espalhou-se como pólvora pelo sertão. Embora o Vaticano tenha mantido uma postura de condenação e ceticismo, o povo viu no episódio um sinal divino, o que deu início a um fluxo migratório sem precedentes. Milhares de sertanejos, fugindo da seca e da miséria, encontraram em Juazeiro não apenas um refúgio espiritual, mas uma oportunidade de recomeço sob a proteção do "Padim".

Beata Maria de Araújo

Com o crescimento vertiginoso, a emancipação política tornou-se uma necessidade inevitável e uma batalha fervorosa. Sob a liderança estratégica do Padre Cícero e do médico Dr. Floro Bartolomeu, Juazeiro lutou para desvincular-se da vizinha cidade de Crato. A vitória foi selada em 22 de julho de 1911, data em que o município foi oficialmente fundado. O Padre Cícero assumiu o posto de primeiro prefeito, consolidando uma gestão que mesclava o poder religioso ao político, transformando a cidade em um polo de artesanato, comércio e resistência cultural que desafiava as estruturas tradicionais do estado.

Doutor Floro Bartolomeu da Costa

Atualmente, a "Capital do Cariri" se apresenta como um fenômeno urbano que equilibra a tradição das romarias com um dinamismo econômico impressionante. A cidade hoje pulsa através de um vibrante centro universitário, um aeroporto regional de grande importância e um setor comercial que atende estados vizinhos como Pernambuco, Paraíba e Piauí. 

Feira livre em rua do Juazeiro (c. 1960)


Bandeira do Município

Caminhar pelas ruas de Juazeiro é testemunhar o encontro do sagrado, representado pela imponente Estátua do Horto e pelos templos lotados, com a modernidade de uma metrópole que nunca para de crescer, provando que a fé foi o alicerce mais sólido para a construção desse oásis sertanejo.

07/02/2024