Fotografia Lambe-Lambe é Destaque no XI Herança Nativa do SESC Ceará

Em meio ao toré dos povos indígenas, ao balanço das saias das comunidades quilombolas e ao aroma das medicinas tradicionais, uma pequena caixa de madeira sobre um tripé roubou a cena no XIº Encontro Sesc Herança Nativa. O local, o Sesc Iparana Reserva Natural, transformou-se em um portal do tempo onde o passado e o presente se encontraram através das lentes de Chico Bruno, do projeto Retrato Batido Cariri.


A Magia que Vem do Cariri

Enquanto a tecnologia digital promete a perfeição instantânea e descartável, Chico Bruno levou para o evento a paciência e o encantamento da fotografia lambe-lambe. O fotógrafo, vindo diretamente do Cariri — terra de mestres e tradições — trouxe na bagagem a técnica centenária de revelar fotos dentro da própria câmera-caixote.


"O lambe-lambe não é apenas tirar uma foto; é um ritual de fixar a alma no papel. No Herança Nativa, cada rosto que passa por aqui carrega uma linhagem inteira. É uma honra devolver esse reflexo de forma tão tátil e artesanal", comenta Chico Bruno, entre uma revelação e outra.

 

O Retrato como Documento de Identidade Cultural


O projeto Retrato Batido não apenas registrou os rostos dos participantes; ele se tornou parte da programação vivencial. Lideranças indígenas, ciganos e quilombolas se aproximavam da c para ver a "mágica" acontecer. O processo, que envolve químicos, banhos de água e a luz do sol, fascina pela sua natureza orgânica.

Diferente do selfie no smartphone, o retrato lambe-lambe exige presença. É preciso ficar imóvel, respirar o tempo da química e esperar que a imagem surja, mergulhada na bandeja, como um segredo revelado. Para muitos mestres da cultura tradicional presentes no Sesc Iparana, levar para casa aquele pedaço de papel em preto e branco foi como carregar um espelho de sua própria história.


O Evento: Um Caldeirão de Saberes



O Encontro Sesc Herança Nativa 2026 consolidou-se este ano como um dos maiores espaços de intercâmbio cultural do Brasil. Reunindo representantes de mais de 80 municípios cearenses e, pela primeira vez, delegações de países africanos e asiáticos, o evento celebrou a diversidade que forma a identidade brasileira. A participação de Chico Bruno reforçou o tema desta edição: a memória como ato de resistência. Ao resgatar uma profissão que quase desapareceu das praças brasileiras, o Retrato Batido Cariri dialoga diretamente com a luta dos povos originários pela preservação de seus próprios territórios e saberes.

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